Pesquisa aponta que quase 70% dos brasileiros são contra privatizações

A maioria dos brasileiros (68%) é contra as privatizações, de acordo com a pesquisa da Ipsos em parceria com o professor Sérgio Lazzarini, do Insper. O percentual de pessoas contrárias a privatizações é maior quando se discute a possibilidade de o Estado se desfazer de ícones da economia governamental como Petrobras (70%), Caixa Econômica Federal (71%) e Banco do Brasil (70%).

Segundo Danilo Cersosimo, diretor da Ipsos Public Affairs, não é a primeira vez que dados de pesquisa mostram rejeição da opinião pública em relação a privatizações. “O brasileiro é mais estatista e essa é uma agenda que terá relevância ao longo dessas eleições. Dado que o Estado brasileiro está com um elevado déficit, é certo que as privatizações serão uma alternativa aventada com o objetivo de minimizar ou equacionar esse desajuste, mas boa parte da população dá sinais de ser contra, especialmente se considerarmos Petrobras, Caixa e Banco do Brasil”, afirma.

O levantamento mostrou que a opinião varia de acordo com a renda e escolaridade dos entrevistados. Entre os que completaram o ensino superior, a aprovação das estatais fica em 28%. Já entre aqueles que não frequentaram a escola, o número cai para 7%. A mesma queda acontece quando comparado as classes A/B, e as D/E, com 27% e 9% de aprovação, respectivamente.

“De modo geral a gente pode observar que as pessoas são contra o processo de privatização na perspectiva de que a participação do estado na economia pode ser algo positivo para elas. Isso daria acesso a determinado tipo de bem ou serviço que é provido pelo estado. Ao longo do tempo algumas pessoas estão começando a ter uma visão diferente, principalmente pela experiência do setor de telefonia”, explicou Ricardo Coimbra, mestre em economia da Unifanor – Wyden.

Quando perguntados sobre a privatização, se o dinheiro obtido com a venda da estatal fosse usado para abater a dívida público ou cobrir gastos do governo, 15% dos entrevistados se posicionaram a favor. Se o dinheiro obtido com a venda da estatal fosse revertido a um fundo público para custear programas sociais, 25% seria a favor da venda da estatal. O percentual de aprovação aumenta para 28% caso as agências públicas cuidassem para que os novos donos dessas empresas não cobrassem preços abusivos à população e oferecessem serviços de qualidade.

“Esse resultado indica que um ponto de risco que parece sensibilizar mais a população é a possibilidade de o controle privado causar perda de bem-estar para a população. Visto de outra forma, indica que propostas de privatização deveriam ser seguidas de sugestões sobre como os serviços, sob controle privado, poderiam ser monitorados e regulados. Esse fato é particularmente preocupante no Brasil, dado que o aparato regulatório do País foi enfraquecido e aparelhado por diversos governos”, comenta Lazzarini, do Insper.

Em período eleitoral, as privatizações de estatais e serviços públicos estão sendo bastante discutidas, principalmente porque são um ponto de divergência entre os candidatos.

“O discurso da privatização vem ganhando mais força. Se a gente observar o processo eleitoral anterior, em 2010, principalmente com o Geraldo Alckmin, a pauta da privatização pesou de forma efetiva, inclusive no segundo turno. Nos últimos anos tivemos uma deterioração da qualidade dos serviços públicos, do processo de corrupção nas empresas públicas e isso ficou muito evidente com o acompanhamento da própria imprensa. A mídia mostrou o processo de corrupção nos correios, na Petrobrás, em outras estatais… Isso minimizou um pouco a visão de que privatização é algo ruim”, complementa o mestre em economia.

Parte dos candidatos à presidência estão apresentando a necessidade de um processo de privatização, seja por incapacidade do estado de manter alguns serviços ou pela visão econômica. “A própria Marina, o Ciro, o Bolsonaro, o Amoedo… Eles estão falando sobre a privatização parcial. Você acaba observando que esse discurso está mudando um pouco mais. Certamente o assunto será debatido, visto que o Estado tem uma situação de déficit público, o que revela que ele talvez não tenha capacidade de injetar recursos e fazer grandes aportes para gerar competitividade nas empresas estatais”, conclui Coimbra.

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