Nasa diz que focos de incêndio na Amazônia têm assinatura do desmatamento

 

Pesquisadores da Nasa afirmam que seus dados sobre queimadas no Brasil estão consistentes com o aumento abrupto que o Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe) constatou nas últimas semanas.

“Vimos sinais de que o desmatamento está aumentando neste momento”, afirmou, à Folha, chefe do Laboratório de Ciências Biosféricas do Centro Goddard de Voo Espacial da Nasa, Douglas Morton.

O pesquisador aponta que é possível correlacionar os principais focos de calor detectados pelos satélites Terra e Aqua da Nasa ao corte raso de floresta na região, e não a outros tipos de atividade não relacionadas ao desmatamento, como limpeza de pastos, preparo de plantios ou queima de bagaços.

“Dez dias atrás, olhei as imagens dos nosso sensores dos satélites em órbita e eles mostravam claramente os focos de calor separados, com colunas de fumaça enormes saindo daquelas áreas da fronteira agrícola, como Novo Progresso, a região da Terra do Meio, no Pará, e o sudeste do estado do Amazonas”, declarou ele à reportagem.

“Não existe uma quantidade de combustível suficientemente alta para gerar aquelas colunas de fumaça se aquilo for somente limpeza de pasto, por exemplo”, avalia.

O padrão de nuvens visto na região é conhecido como “pirocúmulo” e está associado a fogo ou atividade vulcânica. Morton pontua que a última vez que um cenário assim foi capturado por satélites da Nasa na Amazônia foi nos anos de 2002 a 2004, quando o desmatamento anual superava os 20 mil km² por ano.

Nota divulgada pelo site Earth Observatory da Nasa foi extensamente compartilhada em redes sociais por perfis da rede bolsonarista ontem (22), por incluir a informação de que “a atividade total de fogo ao longo da Bacia Amazônica neste ano esteve perto da média em comparação aos últimos 15 anos”.

Morton confirma que o texto está correto porque o ano de 2004 está incluído. No entanto, os dados daquele ano inflam a média, por ter sido mais que o triplo do desmate anual típico dos últimos sete anos.

A informação não pode ser usada, por exemplo, a fim de negar uma tendência alta de aumento no desmate deste ano.

O Programa de Queimadas do Inpe não emitiu relatório sobre a origem das queimadas de 2019, no entanto, deixa disponível em seu site os dados com diversos recortes.

Em nota técnica assinada por quatro cientistas, a ONG Instituto de Pesaquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) dá seu parecer sobre os números.

“O número de focos de incêndios, para maioria dos estados da região [amazônica], já é [ainda em agosto] o maior dos últimos quatro anos. É um índice impressionante, pois a estiagem deste ano está mais branda do que aquelas observadas nos anteriores”, destaca o grupo, encabeçado pelo pesquisador Divino Silvério.

COMPARTILHAR